É relativamente comum que, após uma eleição, pessoas que diziam amar a pátria passem a achar que não vale mais a pena lutar por ela ou, pior, que o povo “merece” sofrer em decorrência do resultado das urnas. Uma derrota política pode produzir sentimentos profundos de frustração, indignação e desesperança. Para muitos, a vitória ou o revés eleitoral vão muito além de uma disputa periódica: significam a ameaça a um determinado projeto de sociedade e trazem preocupações sobre o futuro da economia, a estabilidade das instituições, a segurança jurídica e as liberdades individuais e políticas. Quando a confiança nas instituições se enfraquece, cresce a tentação de desistir de tudo. Mas será que, do ponto de vista cristão, o resultado da eleição pode justificar o abandono dos valores até então defendidos?
Há aproximadamente 2.600 anos, o profeta Jeremias escreveu uma carta magnífica ao povo de Deus, que vivia a dolorosa experiência da deportação para a Babilônia. Longe de sua terra, privado de sua autonomia e submetido a um poder estrangeiro, aquele povo enfrentava a insegurança, o desânimo e a incerteza quanto ao futuro. Alguns alimentavam a expectativa de um retorno imediato, enquanto outros já haviam perdido a esperança. Foi nesse contexto que Jeremias transmitiu uma mensagem desconcertante: "Construí casas e habitai-as, plantai jardins e comei seus frutos" (Jr 29,5). O profeta não ignorava o sofrimento nem alimentava falsas ilusões. Sua mensagem era um convite a não permitir que as adversidades paralisassem a vida, enfraquecessem a fé ou destruíssem a esperança.
A recomendação mais admirável aparece logo depois: "Procurai a paz da cidade para onde vos deportei e orai por ela ao Senhor, porque sua paz será a vossa paz" (Jr 29,7). Deus pedia aos deportados que trabalhassem pelo bem do lugar onde estavam, mesmo sob um governo adverso. Isso não significava concordar com as injustiças da Babilônia e muito menos renunciar à própria identidade e aos seus valores. Significava reconhecer que o compromisso com o bem não pode depender das circunstâncias políticas. A cidade precisava continuar vivendo, as famílias precisavam ser sustentadas e a esperança precisava permanecer acesa. O ressentimento não podia substituir a responsabilidade.
Essa mensagem merece uma reflexão especial de todos, mas, principalmente, daqueles que fizeram da expressão “Deus, Pátria e Família” uma síntese de seus valores. São palavras que carregam compromissos muito mais profundos do que qualquer projeto partidário ou eleitoral. Quem coloca Deus em primeiro lugar não pode transformar o adversário político em inimigo a ser odiado. Quem ama a pátria não pode desejar seu fracasso porque não concorda com os governantes. Quem defende a família não pode desprezar as famílias que pensam de maneira diferente, especialmente aquelas que enfrentam a pobreza e necessitam de solidariedade. Se Deus só merece nossa fidelidade quando vencemos, se a pátria só merece nosso amor quando governamos e se a família só merece nossa defesa quando concorda conosco, então transformamos valores em conveniências políticas.
Uma das tentações mais preocupantes após uma derrota é deixar que a frustração alimente a ideia de abandonar o compromisso com a sociedade, deixando de ajudar os necessitados ou rejeitando aqueles que fizeram escolhas diferentes. Esse comportamento revela uma contradição profunda com a fé cristã. São João adverte: "Se alguém disser: 'Amo a Deus', mas odeia seu irmão, é mentiroso" (1Jo 4,20). O mandamento do amor não foi condicionado às preferências eleitorais. A fome não tem partido, o sofrimento não escolhe ideologia e a dignidade humana não depende do voto. Deixar de fazer o bem porque o outro pensa diferente não é resistência política: é desistir do Evangelho.
Isso não significa aceitar passivamente as injustiças, silenciar diante dos abusos de poder ou abandonar a luta por instituições justas e responsáveis. Pelo contrário, o amor à pátria exige vigilância, participação, coragem e compromisso com a verdade. É legítimo — e necessário — discordar de governos, denunciar irregularidades, exigir transparência e defender os direitos fundamentais. Entretanto, existe uma diferença essencial entre combater aquilo que consideramos errado e desejar que tudo dê errado. O cristão não pode confundir oposição política com indiferença ao sofrimento alheio. Governos passam, partidos se alternam no poder em uma democracia, mas a responsabilidade pelo bem comum permanece.
Jeremias encerra sua mensagem anunciando que Deus não havia abandonado seu povo: "Eu conheço os planos que tenho para vós, planos de paz e não de desgraça, para vos dar um futuro e uma esperança" (Jr 29,11). A promessa não significava o fim imediato do sofrimento, mas a certeza de que a adversidade não teria a última palavra. Também hoje precisamos compreender que a esperança cristã não nasce das vitórias eleitorais nem morre com as derrotas. Ela nasce da confiança em Deus e se manifesta na perseverança daqueles que continuam fazendo o bem, sejam as circunstâncias favoráveis ou não.
Jeremias não pediu aos deportados que esquecessem sua terra ou aprovassem os governantes da Babilônia. Pediu que não abandonassem a vida, a fé e a responsabilidade pelo bem de todos. Essa mensagem continua atual. A pátria permanece, independentemente de quem ocupa o poder. Deus não perdeu nem ganhou uma eleição; a família não deixou de ser um valor e os pobres não podem ser abandonados porque votaram neste ou naquele candidato. Não é preciso concordar com quem governa para continuar amando a pátria, tampouco deixar de amar o próximo em razão de suas escolhas políticas. Na vitória ou na derrota, é necessário descobrir se nossos valores são convicções verdadeiras ou apenas bandeiras de uma campanha eleitoral.
Dom Devair Araújo da Fonseca
Bispo de Piracicaba
Dom Devair Araújo da Fonseca