Uma antiga história conta que uma pessoa procurou um sacerdote para fazer uma confissão. Reconheceu que havia prejudicado alguém por meio de suas palavras, espalhando comentários e acusações sem fundamento. Como penitência, o padre pediu que ela subisse à torre da igreja, abrisse um travesseiro de penas e as lançasse ao vento. A pessoa estranhou, mas fez o que lhe foi pedido. Quando retornou, o sacerdote lhe disse: “Agora volte e recolha todas as penas”. Ela respondeu que isso seria impossível, pois o vento já as havia espalhado por toda parte. Então o padre explicou que o mesmo acontece com nossas palavras: depois de lançadas, já não conseguimos saber até onde chegaram nem reparar completamente os danos que causaram.
Essa antiga história parece ter sido escrita para o nosso tempo. As penas continuam sendo espalhadas, mas o vento agora é digital. Uma mensagem, um vídeo, uma fotografia manipulada ou uma frase retirada de seu contexto podem alcançar milhares de pessoas em poucos minutos. A mentira percorre distâncias que seu autor jamais poderia imaginar — embora esse também possa ser o seu objetivo. E, quando aparece a correção, quase sempre é tarde: o esclarecimento raramente alcança todas as pessoas que receberam e compartilharam a informação falsa.
Essa realidade se torna ainda mais preocupante durante o período eleitoral. As fake news são utilizadas para destruir reputações, despertar medo, provocar indignação e conduzir escolhas. Muitas vezes, são apresentadas como informações espontâneas quando, na verdade, escondem interesses políticos, econômicos ou partidários. Não procuram ajudar o eleitor a compreender a realidade, mas conduzi-lo por meio de suas emoções. Quanto maior a indignação provocada, maiores são as possibilidades de a mensagem ser compartilhada sem nenhuma verificação.
Por isso, o discernimento cristão precisa começar antes do momento do voto. Ele começa quando recebemos uma informação e decidimos o que fazer com ela. Antes de perguntar se uma notícia favorece o candidato de nossa preferência, precisamos perguntar se ela é verdadeira. Não basta que a mensagem pareça convincente, confirme nossas opiniões ou tenha sido enviada por uma pessoa conhecida. É necessário verificar sua origem, conhecer o contexto e saber quem se beneficia com sua divulgação. Compartilhar uma mentira sem conhecimento não nos exime dos seus efeitos.
O mesmo cuidado deve orientar a escolha dos candidatos. A decisão não pode depender apenas de simpatias pessoais, discursos bem preparados ou declarações religiosas feitas durante a campanha. É preciso conhecer a história do candidato, sua conduta pública, suas propostas, seus compromissos e os grupos que sustentam sua candidatura. Também é necessário perceber o que pode estar escondido atrás das promessas. Há candidatos que exploram os valores religiosos para conquistar votos, assim como há grupos que procuram silenciar qualquer manifestação da fé no espaço público. O discernimento não se deixa aprisionar por nenhum desses extremos.
A Igreja não tem partido, mas possui um compromisso irrenunciável com o Evangelho e com a verdade. Não lhe cabe transformar o altar em palanque nem indicar em quem os fiéis devem votar. Contudo, ela não pode permanecer indiferente diante da mentira, da corrupção, da violência e das injustiças. Sua missão inclui formar consciências livres e responsáveis, com capacidade de avaliar os projetos políticos à luz da dignidade humana e do bem comum. Não possuir um partido não significa deixar de apresentar critérios.
Jesus entregou sua vida pela causa do Reino de Deus. Esse Reino não se confunde com uma ideologia, um governo ou uma legenda partidária. Ele começa com o convite à conversão: “Convertei-vos e crede no Evangelho”. A conversão alcança o coração humano, mas não permanece fechada na vida privada. O pecado, quando se transforma em egoísmo, corrupção, mentira, violência e abuso de poder, fere a dignidade das pessoas, destrói relações, degrada a sociedade e ameaça a própria criação.
Por isso, a escolha de um candidato deve considerar seu compromisso com a vida, a justiça, a paz, a liberdade, os mais pobres e o cuidado com a casa comum. Nenhum candidato ou partido realiza plenamente o Evangelho — isso é uma verdade consolidada. Tampouco se pode reduzir a avaliação a um único tema, ignorando todos os demais aspectos da dignidade humana. O cristão é chamado a olhar o conjunto, examinar as propostas e perceber se existe coerência entre as palavras pronunciadas e as atitudes concretas. O voto consciente nasce de uma consciência bem formada, não da paixão partidária.
Também devemos reconhecer que a mentira não se torna verdadeira quando favorece aquilo que queremos. O fim não justifica os meios, nem mesmo quando imaginamos estar defendendo uma boa causa. A verdade não precisa da mentira para ser protegida. Quem compartilha uma acusação sem verificar sua procedência pode colaborar com a injustiça que afirma combater. O simples toque no botão de encaminhar não elimina nossa responsabilidade moral. Cada compartilhamento pode se transformar em uma nova rajada de vento.
À medida que as eleições se aproximam, parece que, a cada momento, um novo travesseiro é aberto e suas penas são lançadas do alto da torre digital. Não conseguimos recolher todas as que já foram espalhadas, mas podemos decidir não lançar outras ao vento. Diante de cada notícia, acusação ou promessa, precisamos escolher a verdade antes do partido, a consciência antes da paixão e o bem comum antes dos interesses particulares. As eleições passam, mas as feridas provocadas pela mentira podem permanecer por muito tempo.
Dom Devair Araújo da Fonseca