No próximo domingo, dia 27 de setembro, a Igreja celebra o Dia da Bíblia. Essa data é comemorada sempre no último domingo de setembro, próximo da festa de São Jerônimo, que dedicou sua vida ao estudo da Bíblia, celebrada no dia 30. Ele é considerado um dos doutores da Igreja, possuidor de uma grande cultura literária e bíblica; foi responsável pela tradução da Bíblia para o latim, edição conhecida como “Vulgata”.
Na coluna “Catequese Bíblica” do jornal diocesano Em Foco, padre Demetrius dos Santos Silva, Biblista e docente do Curso Diocesano de Teologia, reflete mensalmente sobre textos bíblicos.
Segue abaixo o texto da edição deste mês do Em Foco na íntegra.
Foi na Comunidade Joanina que nasceram o Quarto Evangelho e as Cartas de São João. Essa comunidade nasceu no norte da Palestina, na Síria, longe do judaísmo oficial e teve contato com outros movimentos judaicos e escolas do mundo grego. Depois, essa comunidade se esparramou pela Ásia Menor.
A tradição Joanina tem suas raízes no judaísmo palestino e incluiu os discípulos de João Batista, como observamos em Jo 1,35-51. Entre os primeiros discípulos, devemos contar com André (irmão de Pedro) e com o outro discípulo, que mais tarde se tornará o "discípulo amado". As expectativas desse grupo estão inseridas em uma esperança messiânica do tipo davídica, isto é, eles esperam um descendente de Davi que restauraria o grande reino de Israel.
Houve um grupo de judeus com mentalidade “anti-Templo” (Jo 2–3) e um grupo de samaritanos (4) integrados na comunidade. Esse segundo grupo possui uma esperança messiânica mosaica, pois esperam o Profeta que surgiria para substituir Moisés. Eles vivem uma teologia superior que mais tarde levará à ideia da pré-existência de Jesus (Verbo Divino). Nesse momento, a presença do discípulo amado é a chave.
Esses grupos foram expulsos da sinagoga e, a partir daí, os cristãos Joaninos, mesmo sendo judeus de origem, deixaram de ser considerados como tal e passaram a se referir aos "judeus" como um grupo estranho e hostil. A ruptura ocorrida no tempo da Comunidade Joanina se reflete no Quarto Evangelho com a expulsão do cego e sua família (Jo 9) e com a acusação de blasfêmia sofrida por Jesus.
Quando os cristãos Joaninos foram expulsos da sinagoga, eles começaram a receber um bom número de gentios (gregos, romanos e outros não-judeus) na comunidade. Essa etapa coincide com uma mudança geográfica da Comunidade Joanina que se desloca à diáspora “para ensinar os gregos” (Jo7,35). André e Filipe, ambos com nomes gregos, são apresentados no Evangelho como os responsáveis por aproximar de Jesus aqueles gregos que queriam conhecê-lo (Jo12,20-22). A Comunidade Joanina se firma na Ásia Menor.
Essa abertura aos gentios envolveu mais do que ter que adicionar parágrafos ao Evangelho, explicando termos hebraicos ou aramaicos (Jo 19,13-17; 20,16). O Discípulo Amado tornou seu Evangelho acessível para homens e mulheres de todas as culturas, emprestando termos e símbolos de suas literaturas.
Houve vários conflitos enfrentados pela Comunidade Joanina. Nessa etapa nasceram as três Cartas de São João. A Comunidade Joanina se fez presente em várias cidades e as cartas foram enviadas para elas. Nessas cidades havia comunidades fundadas por outros discípulos. Exemplo: em Éfeso temos a Comunidade Joanina e a Comunidade fundada por São Paulo. A 2ª e 3ª cartas de João foram endereçadas a Éfeso. Dentro da comunidade parece haver um corpo de anciãos (presbíteros) que estaria mais próximo do Discípulo Amado. Entre esses estaria o "evangelista", isto é, o redator final e o autor das cartas, o “nós” de Jo 21,24 e 1Jo 1,1-2.
Na primeira carta, somos informados de que um grupo se retirou da comunidade (1Jo 2,19). Esses "separatistas" têm graves erros teológicos e éticos. No fundo, esses erros nada mais são do que interpretações equivocadas do Quarto Evangelho. As cartas nascem para recolocar as comunidades no caminho de Jesus e superar toda distorção na interpretação do Evangelho. Paz e bem a todos.
Pe. Demetrius dos Santos Silva
Biblista e docente do Curso Diocesano de Teologia
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Foto: Pedro Polo

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